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09/05/2011

Música Boa e Música Ruim

A igreja, na sua tendência de tentar separar o "sagrado" do "profano", propôs uma divisão entre música profana e música sacra. Música profana seria a usada para serviços não-religiosos e a sacra, exclusiva para o culto cristão. Certo dia li um artigo do Maestro Parcival Módolo que abordava o tema da Música Tripartida, numa tricotomia entre Música Erudita, Música Popular e Música Sacra. Antes, porém, eu havia lido o comentário de Calvino sobre Tito 1.12, no qual ele afirmava que toda verdade é de Deus e não deve ser desprezada se sair da boca de um incrédulo. Calvino disse isso porque o texto de Epimênides, a saber, "varões cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos", não era de um cristão e, mesmo assim havia sido incluído no texto canônico da carta a Tito. Nesse ponto, as coisas se complicaram na minha cabeça. À luz da precisão do comentário de Calvino, eu não poderia classificar a música da forma tradicional: sacra versus profana ou de forma tripartida.
Do ponto de vista da complexidade, virtuosismo e dinamismo da história, a cisão entre música erudita e popular seria aceitável. Se bem que alguns estilos ditos populares são extremamente complexos e exigem virtuosismo por parte do executor. Talvez, a melhor maneira de classificar a música, quem sabe a mais justa, ainda que aparentemente pueril, seja: “música boa” versus música ruim”. O critério para se avaliar se a música é boa ou ruim não seria o gosto pessoal, nem a complexidade, mas a relação forma-conteúdo ou “impressão” e “expressão”, de acordo com a finalidade e o meio onde a música é executada, sob o crivo da Palavra de Deus.
Deixe-me caminhar um pouco mais em minha argumentação. Para começar, não existe estilo musical neutro. Sempre o estilo comunicará alguma idéia, transmitirá algum sentimento. A música, só com o instrumental, prepara um ambiente, seja para uma festa ou para um velório. A isto chamamos de “impressão”. Quando pensamos na mensagem que a música transmite, ou seja, no texto que ela subsidia, então estamos nos referindo à “expressão”, que será boa ou ruim dependendo da teo-referência. Conclusão: Música boa será a que for teo-referente, ou seja, a que estiver de acordo com a revelação bíblica, subsidiando uma mensagem que comunique a verdade e que seja edificante. Mas música boa também será aquela que possuir relação salutar e coerente entre a impressão e a expressão. Não creio ser apropriado, por exemplo, metrificar um salmo com uma melodia em “samba-enredo”. Por quê? Porque não existe estilo neutro. O samba-enredo é um estilo que lembra carnaval e as mulatas com trajes sumários dançando pela passarela.
A teo-referência da letra, no entanto, não resolve todos os problemas. Um determinado estilo musical poderia ser apropriado a um contexto cultural, mas não a outro, ainda que tenha a mesmíssima mensagem. Por exemplo, eu cantaria, sem problemas, uma música em estilo “xaxado”, uma vertente do baião nordestino, como parte integrante de um culto numa igreja em Roraima, mas não daria certo se eu tocasse a mesma música num culto em uma igreja tradicional histórica de Belo Horizonte. Então a mesma música seria boa em Roraima, mas ruim aqui em BH. Um fator preponderante na análise da relevância de uma música é a própria relação do estilo dela com a cultura local. Uma música acompanhada de atabaques em meio aos komkombas, em Gana, seria apropriado, mas não numa igreja Presbiteriana antiga em São Paulo. Tem música que é para diversão, outra para momentos sérios de introspecção, outras para adoração, louvor, contrição, etc. Calvino disse: “Há sempre a considerar-se que o canto não seja frívolo e leviano; pelo contrário, tenha peso e majestade, como diz Santo Agostinho. E, assim, haja grande diferença entre música feita para alegrar os homens à mesa ou em casa e os salmos que se cantam na Igreja, na presença de Deus e de seus anjos”.
Isso nos faz pensar que deveríamos ampliar nossa visão do que seja bom ou ruim, próprio ou impróprio no que diz respeito à música no culto ou na vida. Não podemos demonizar alguns estilos musicais. Muitos que não gostam de um determinado estilo musical, por não conseguirem argumentar racionalmente sobre sua irrelevância ou impropriedade, acabam dizendo que é do diabo, como uma espécie de escape à razão ou medida desesperada de quem não tem embasamento nas afirmações. A música, como meio, não é do diabo e jamais será. Vai depender da sua função teleológica. O diabo até pode usar a música para seus interesses, mas apenas nesse caso ela cumpriu essa função nefasta. Ela é meio e não fim. Devemos redimir a música, assim como as demais artes, e aplicar estes meios não como instrumentos para a glória do artista ou para os interesses de Satanás, mas para expressar a glória de Deus e comunicar a sua verdade.
Em vez de serem simplistas, as pessoas precisam pensar a respeito do que é bom ou ruim quanto à música, não com o egoísmo aflorado, obrigando todos a aceitarem sua preferência pelo tecnobrega. Se o estilo é ruim mesmo, impróprio por causa da impressão e da expressão, se fomenta a cultura do lixo, não deve estar no playlist do cristão. Vamos redimir nosso ouvido. Vamos ouvir só música boa, teo-referente e com estilo apropriado e coerente com a mensagem.
Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Fp 4.8).
Charles Melo de Oliveira

20/02/2011

Música Cristã - MANIFESTO



Olhe para a música gospel brasileira e responda: O que você vê? Não sei qual será a tua resposta, mas gostaríamos de expor a nossa.

As músicas atuais são vazias de teologia. Hoje, o que mais vemos são músicas carregadas de humanismo, auto-ajuda, triunfalismo, emocionalismo vazio e tantas outras mazelas. Diante de tal contexto, queremos afirmar três máximas que norteiam o nosso atual protesto pela reforma na música cristã brasileira.

1. Afirmamos que a música cristã deve ser centrada nas Escrituras;

“A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração” (Cl 3:16).

O texto diz que devemos ensinar uns aos outros através de salmos, hinos e cânticos. Logo, vemos que a música, além de louvar a Deus, serve para edificar aqueles que ouvem a letra. E quando isso acontece? Quando a palavra de Cristo habita em nós de um modo abundante. Se uma teologia bíblica for abundante em nosso meio, a música será um instrumento de edificação; se não, será uma difusora de heresias. Querem saber por que a música, hoje, é tão pouco bíblica? É exatamente porque a Palavra de Deus não é abundante na mente dos cristãos. Que saber por que os momentos de louvor são tão mortos ou cheios de falso fogo? Por que não cantamos as Escrituras: “Meus lábios transbordarão de louvor, pois me ensinas os teus decretos” (Sl 119:171). Se ensinarmos os decretos do Senhor através das canções, os lábios dos cristãos transbordarão de louvor genuíno. “... eu te louvo por causa das tuas justas ordenanças” (Sl 119:164).

Precisamos perceber que os cânticos, salmos e hinos possuem um papel didático, como ocorria com os Salmos no povo de Israel. Comentaristas explicam que eles cantavam constantemente a Palavra sobre Deus, pois temiam que lhes sobreviesse o que Deus disse: “Se vocês se esquecerem de mim, os ferirei” (cf. Dt 6:12-16). É por isso, talvez, que Paulo nos alerta que nos mantenhamos cheios do Espírito “falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” (Ef 5:19). Logo, esse é nosso apelo aos músicos da Igreja de Deus: Cantem a Bíblia! Que vocês possam dizer como o Salmista: “Os teus preceitos são o tema da minha canção...” (119:54) e “A minha línguas cantará a tua palavra...” (119:172).

2. Afirmamos que a música cristã deve ser baseada nos Atributos de Deus;

Medite nas palavras de I Crônicas 16:29, onde diz: “[...] Adorai ao SENHOR na beleza da sua santidade.” Perceba que esse texto nos manda adorar a Deus por conta de um dos Seus atributos: A Santidade. Veja, não é uma adoração vaga. Não é uma adoração vazia. Não é uma adoração baseada unicamente em emoções. É uma adoração baseada no que eu conheço de Deus. É exatamente isso que deve acontecer. Deus deve ser adorado não por conta de uma voz que nos leva a cantar ou por notas dissonantes que nos comovem, mas por causa dos atributos do nosso Criador e da Sua magnífica obra.

Se estudarmos a palavra “louvor”, nos surpreenderemos ao perceber que ela é um sinônimo da palavra “elogio”. Você não elogia ou louva uma pessoa porque está sentindo algum tipo de êxtase místico, mas por causa dos elogiáveis atributos dela. Percebemos isso se meditarmos no livro de Salmos. Veja quão ricos são tais louvores. Se você analisar com atenção, os atributos de Deus são vívidos naqueles hinos. Além disto, as ordenanças para adorar ao Senhor neste livro se baseiam constantemente em suas obras e atributos.

“Louvai ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre.” (136:1); “Adorai o SENHOR na beleza da santidade.” (29:2) “Louvai ao SENHOR, porque o SENHOR é bom...” (135:3); “Louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome. [...] Todos os reis da terra te louvarão [...] E cantarão os caminhos do SENHOR; pois grande é a glória do SENHOR.” (138:2,4,5); “Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.” (139:14).


3. Logo, Afirmamos que a música cristã deve expor Cristo.

Se as Escrituras testificam de Cristo (Jo 5:39) e se Cristo é a revelação do Pai (Jo 1:18); a conclusão lógica disto é que a música cristã, ao seguir as duas primeiras condições, naturalmente irá expor Jesus Cristo. Assim, como Cristo deve ser o centro de todas as ações da Igreja (cf. I Co 10:31; Cl 3:17; Rm 14:23b), para que Jesus seja normalmente exposto nas músicas que o povo de Deus canta, as duas primeiras condições precisam ser seguidas. Se a música não for centrada nas Escrituras nem baseada em quem Deus é, ela não irá expor Cristo de um modo suficiente, sendo, assim, um pecado contra Deus.

Nós, do grupo Cante as Escrituras, unanimemente professamos, pregamos e buscamos viver essas verdades. Essa é a mensagem que passamos com nossas manifestações e é o que oramos que a Igreja brasileira viva, para a glória de Deus e a alegria de Seu povo.

No amor de Cristo,
Grupo Cante as Escrituras.

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